Em carta enviada em fevereiro a Bolsonaro, Biden cobrou compromisso com metas ambientais

Trecho não foi incluído em nota da Secretaria de Comunicação do Planalto divulgada mais cedo, um dia depois de entrevista de Lula à CNN

BRASÍLIA — Em carta enviada ao presidente Jair Bolsonaro em 26 de fevereiro, o presidente dos EUA, Joe Biden, disse esperar um compromisso maior do governo brasileiro com a proteção ao meio ambiente no período que antecede a cúpula sobre o clima que o americano está organizando para 22 de abril, Dia da Terra.

Trechos da carta foram divulgados nesta quinta cedo pelo Planalto, mas a parte da cobrança não constava do comunicado da  Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência. A carta foi uma resposta à mensagem enviada por Bolsonaro no dia da posse do democrata, 20 de janeiro.

Contexto: Colaborar ou punir desmatadores? Grupos de pressão disputam influência na política de Biden para a Amazônia

No texto, Biden diz que seu governo está “atuando rapidamente”, tanto internamente como com parceiros internacionais, para combater a pandemia da Covid-19 e para “responder com urgência à ameaça global representada pela mudança climática”. O presidente americano disse esperar que os Estados Unidos e o Brasil possam combater esses problemas juntos, tanto de forma bilateral como em fóruns mundiais.

“Espero ver compromissos do seu governo em aumentar a ambição sobre a questão climática antes da cúpula de líderes pelo clima que eu vou organizar em 22 de abril, enquanto trabalhamos para proteger nossos recursos naturais e tirar milhões da pobreza por meios sustentáveis”, escreveu Biden.

Trecho de carta enviada por Biden a Bolsonaro em 26 de fevereiro Foto: Arte O Globo

O recebimento da carta, com parte do seu conteúdo, foi divulgado mais cedo pela Secom. O GLOBO teve acesso depois à integra do documento. Na sua nota, a Secom disse apenas que Biden defendeu parcerias na questão do clima e no combate à pandemia.

Bolsonaro foi convidado para a cúpula de 22 de abril, mas o governo brasileiro ainda não confirmou se ele vai.

Na carta, Biden afirma ainda que Brasil e Estados Unidos compartilham “objetivos comuns e desafios”. Ele diz que a História aproximou os dois países, citando a luta pela independência, a defesa da democracia e da liberdade religiosa, a “rejeição afinal da escravidão” e “o longo caminho para abraçar o caráter diverso de nossas sociedades”.

Ele termina o texto dizendo esperar trabalhar de forma próxima com o Brasil “para tornar a região e o mundo lugares melhores” e afirmando que é o início de um “novo capítulo” da relação bilateral dos dois países.

Biden e Bolsonaro ainda não se falaram por telefone desde a posse do democrata —  na América Latina, o ocupante da Casa Branca já conversou com o argentino Alberto Fernández, o chileno Sebastián Piñera e o costa-riquenho Carlos Alvarado, além de ter feito uma cúpula virtual com Andrés Manuel López Obrador, do México, país com o qual os EUA mantém, ao lado do Canadá, um acordo de livre comércio.

A divulgação da carta pelo Palácio do Planalto ocorreu no dia seguinte à veiculação de trechos de uma entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à rede de TV americana CNN. Nos trechos, Lula pede que Biden repasse a outros países as 30 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca que estão estocadas nos EUA sem uso, e também que convoca uma cúpula do G-20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, para discutir uma distribuição mais equitativa dos imunizantes no mundo.

Lula diz ainda que o democrata é um “sopro de democracia”, em contraste com seu antecessor, Donald Trump, de quem Bolsonaro era forte aliado.

Bolsonaro foi um dos últimos líderes mundiais de expressão a reconhecer a vitória de Biden nas eleições do ano passado e afirmou mais de uma vez, sem apresentar provas, que houve fraude na disputa. Entretanto, quando não havia mais chances do resultado ser revertido, o brasileiro passou a fazer gestos de aproximação.

No dia da posse de Biden, em janeiro, Bolsonaro anunciou ter enviado uma carta ao americano na qual expôs sua “visão de um excelente futuro para a parceria Brasil-EUA”.

Apesar do apoio do brasileiro à reeleição de Trump e das críticas de deputados democratas às políticas de Bolsonaro na área de meio ambiente e direitos humanos, o governo Biden tem indicado que não vai buscar o confronto com o Planalto, pelo menos neste primeiro momento.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui