Saúde no Brasil, vergonha nacional

O ministro-general Eduardo Pazuello, da Saúde, se reuniu, no último dia 8, com os governadores dos estados, em Brasília. O encontro foi sugerido pelos próprios governadores, que queriam discutir com o titular da pasta a necessária e imprescindível vacinação do povo brasileiro para o enfrentamento do coronavírus, Covid-19. Os governadores cobraram do ministro-general uma política eficaz para combater esse vírus, que já tem cerca de 6.700.000 casos confirmados e mais de 178 mil mortes.

A guerra política e ideológica travada desde o início da pandemia fez com que o médico Luiz Henrique Mandetta acabasse sendo demitido do cargo de ministro da Saúde, após divergências com o presidente Bolsonaro quanto à política de isolamento social no período da pandemia.

Mandetta, que defendia o isolamento máximo, com o qual Bolsonaro não concordava e ainda não concorda, foi substituído pelo médico oncologista Nelson Teich, que ficou menos de dois meses no cargo e preferiu pedir demissão após ser contrariado pelo presidente Bolsonaro sobre do uso da cloroquina em pacientes com sintomas leves de coronavírus e da adoção de uma política de isolamento horizontal no país.

Apesar da pressa dos governadores, a data de início da vacinação no país ainda não está definida, já que ainda depende do registro na Anvisa. O ministro explicou que os estudos das vacinas AstraZeneca e Oxford estão em fase de conclusão e, após, serão submetidas à Anvisa. Ele lembrou, ainda, que a Anvisa, dentro da sua responsabilidade para analisar o registro dessas vacinas, precisa de tempo para concluir essa ação, que deve, segundo o ministro-general, demandar 60 dias. E, caso isso ocorra, o registro definitivo da AstraZeneca ocorrerá no final de fevereiro de 2021.

Enquanto o registro não sai, o ministro-general disse aos governadores que o Ministério da Saúde já elaborou a logística de distribuição nacional das vacinas, que será apresentada em breve. O problema é quando será apresentada essa logística!

Pazuello, em discurso pouco enfático, comentou que, quando se trata da saúde, não se pode abrir mão de eficácia, segurança e responsabilidade, e que quando o Governo Federal disponibilizar a vacina, será o governo o responsável pela sua credibilidade.

Ora, todos esses comentários são óbvios demais e nada acrescentam à agonia dos governadores e do povo brasileiro, que continua sofrendo; somente nas últimas 24 horas, foram incluídos mais 51.088 contaminados e 842 falecimentos pela doença. A taxa de letalidade em todo o território nacional neste momento permanece em 2,7%.

Na reunião, também foram destacadas as tratativas do Ministério da Saúde com o laboratório Pfizer e com o Instituto Butantan, além dos prazos para o início da campanha de vacinação no Brasil conduzida pelo PNI, que será dividida em quatro fases.

Pazuello destacou que 15 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca – das 100 milhões acordadas – já começam a chegar em janeiro de 2021. O ministro-general garantiu aos governadores que o Governo Federal vai “vacinar todo mundo na maior velocidade possível”.

O governador de São Paulo, João Dória, em tom incisivo, questionou o ministro-general sobre uma política clara para a Saúde, com prazos e escolhas de laboratórios. Em resposta, o ministro-general lembrou os acordos já feitos pelo Governo Federal com o laboratório AstraZeneca para a compra de 260 milhões de doses e insumos para fabricação, e a entrada no consórcio Covax Facility, para compra de 42 milhões de doses de vacinas, acrescentando que o SUS já tem capacidade para a compra de 300 milhões de doses para 2021.

Os governadores criticaram o anúncio feito pelo colega de São Paulo, João Dória, que começaria a imunizar os paulistanos a partir do dia 25 de janeiro com a CoronaVac, vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan. Doria se comprometeu a iniciar a vacinação antes da aprovação do imunizante pela Anvisa e causou mal-estar entre os colegas, que cobraram do ministro da Saúde que nenhum estado saia na frente na imunização da população.

Os governadores disseram que o Ministério da Saúde se comprometeu que a vacinação seria nacional, sem privilégios para determinados estados, já que o Plano Nacional de Imunização, PNI, é nacional. Irritado com Dória, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que é médico, afirmou que o plano nacional não é de responsabilidade dos governadores, mas do Governo Federal, e que se um governador sai da frente coloca em jogo a credibilidade dos demais.

O aumento de pessoas infectadas voltou a registrar número acima de 50 mil. Até agora, os recordes de confirmações e vítimas fatais de todo o período da pandemia no território brasileiro ocorreram no dia 29 de julho, com mais 72.377 e 1.664, respectivamente.

Com esses novos dados sobre a pandemia, o Brasil se mantém como o segundo com maior número de óbitos e o terceiro em infectados pelo coronavírus no mundo, de acordo com a Universidade Johns Hopkins e os dados do Worldometers. O Brasil é um dos líderes em acréscimos de mortes diárias e casos no mundo.

Na realidade, o Brasil só acordou para a gravidade da pandemia que já havia deixado um rastro trágico de mortes na Ásia, quando o primeiro infectado brasileiro foi identificado em 26 de fevereiro, em São Paulo. Ao contrário de outros chefes de Estado que foram à TV fazer apelos dramáticos, Bolsonaro continua a investir em aparições frágeis e desconcertantes, rebatendo diretrizes mundiais, ao se colocar contra, por exemplo, a proibição de cultos em igrejas, foco de aglomeração de pessoas e um terreno fértil para proliferação do vírus. Já chamou a Covid-19 de “gripezinha”, e chegou a dizer que a preocupação com a epidemia era uma “histeria”, dizendo que o objetivo de quem alarma a população é paralisar a economia para acabar com o Governo dele.

As falas do presidente sempre foram corrosivas, mas agora causam muito mais impacto em meio a tempos de calamidade pública. Bolsonaro virou notícia mundial, por exemplo, ao cumprimentar um aglomerado de apoiadores na porta do Palácio do Planalto em plena epidemia. Desde então, ficou claro que sua postura errática é um elemento extra para o Brasil na luta contra o coronavírus.

Bolsonaro, por sua vez, tem colocado energia na disputa política com eventuais adversários políticos que cobram uma postura mais arrojada do governo do que em dar ênfase à gravidade que o Covid-19 significa ao país. E sua mira é o governador Dória, possível candidato à Presidência da República em 2022. Em vez de convocar um pacto nacional convidando todos os governadores para trabalharem juntos as soluções para a epidemia, Bolsonaro repete publicamente queixas sobre governadores.

Enquanto isso, o desemprego atinge 14 milhões de pessoas; o MEC admite aulas presenciais, depois aulas remotas, depois aulas híbridas num vaivém de decisões inaceitáveis, exibindo toda a sua fragilidade; o Ministério das Relações Exteriores continua sem uma política adequada perante os demais países; o Meio Ambiente é relegado, como se não fossem importantes as questões da Amazônia; e o país segue em completo marasmo, com sua imagem arranhada em todo o mundo pela mesquinharia das ações praticadas pelo governo central, com discursos despropositados e pela falta de visão global. Triste realidade.

fonte: https://monitormercantil.com.br/saude-no-brasil-vergonha-nacional/

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