Bogotá decreta toque de recolher após novos protestos e Duque pede ‘diálogo nacional’

Manifestantes usam panelas durante protesto contra as políticas do governo do presidente da Colômbia, Iván Duque, em Bogotá. Toque de recolher foi decretado nesta sexta-feira na cidade Foto: LUIS ROBAYO / AFP

Colômbia registra novos protestos, após confrontos na véspera deixarem 3 mortos

BOGOTÁ — Em meio a uma onda de protestos que já deixou três mortos e centenas de feridos na Colômbia, o prefeito de Bogotá decretou toque de recolher em toda a cidade a partir das 23h desta sexta-feira (hora de Brasília). Mais cedo, ele já havia declarado a medida em três regiões específicas da capital. Manifestações pacíficas começaram na véspera, com uma greve geral que levou multidões às ruas em diversas cidades do país, mas saques e atos de vandalismo foram registrados na noite de quinta, com distúrbios voltando a ocorrer nesta sexta.

— A partir das oito da noite (22h em Brasília), [passa a valer o] toque de recolher nas localidades de Bosa, Ciudad Bolívar e Kennedy. A partir das nove da noite (23h em Brasília), em toda a cidade. Os dois toques permanecem em vigor até as seis da manhã de sábado — afirmou o prefeito Enrique Peñalosa.

O toque de recolher foi decretado a pedido do presidente Iván Duque. Segundo Peñalosa, 20 mil integrantes de forças de segurança, incluindo polícia e Exército, vão fazer valer a medida.

— De maneira alguma nós, a maioria, permitiremos que essa minoria ínfima de delinquentes destrua nossa cidade.

Num aparente aceno aos manifestantes, o presidente Iván Duque pediu, durante um pronunciamento na TV na noite desta sexta, um “diálogo nacional” para fortalecer a agenda social. O presidente conservador, que está há apenas 15 meses no cargo, disse que esse diálogo ocorrerá “em todas as regiões, com todos os setores sociais e políticos” para que se estabeleça um caminho de reformas.

— A partir da próxima semana darei início a uma conversa nacional que fortaleça a agenda vigente de política social, trabalhando assim de maneira unida em uma visão de médio e longo prazo que nos permita fechar as brechas sociais — disse o presidente, que na véspera já havia feito um pronunciamento em cadeia nacional.

O toque de recolher em Bogotá veio após mais um dia de protestos nas ruas de todo o país, com milhares de pessoas defendendo pautas como maiores direitos às populações nativas, verbas para a educação e o rechaço a um pacote de reformas do governo. O Ministério da Defesa disse nesta sexta-feira que os conflitos deixaram três mortos no departamento (estado) de Valle del Cauca, onde fica Cali, dois deles durante um saque a um centro comercial.  Segundo Duque, 146 pessoas foram detidas.

Além das bandeiras e palavras de ordem nas ruas, um incomum panelaço se espalhou por bairros de Bogotá, Cali e Medellín, depois de manifestações majoritariamente pacíficas que, em alguns casos, acabaram em conflitos entre manifestantes e a polícia. As panelas voltaram a ser ouvidas nesta sexta depois que o ex-candidato presidencial de esquerda Gustavo Petro convocou um ato na Praça Bolívar.

— Estamos aqui para continuar protestando contra o governo de Duque. É um governo ineficiente que mata crianças e não reconhece isso — disse Katheryn Martínez, estudante de arte de 25 anos que estava acompanhada do pai, Arturo, de 55.

Ela se referia à morte de oito menores em um bombardeio contra um suposto acampamento de dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a antiga guerrilha que firmou um acordo de paz e depôs armas em 2016. O ataque, ocorrido em agosto, veio à tona no início de novembro e  levou à renúncia do ministro da Defesa  Guilherme Botero, substituído por Carlos Holmes Trujillo.

O movimento foi dispersado pela polícia, que usou bombas de gás contra a multidão no centro histórico de Bogotá.

Alta desaprovação

O conservador Duque, que segundo as pesquisas tem uma desaprovação de 69%, disse no pronunciamento televisionado no fim da noite de quinta que reconhece o “espírito do protesto pacífico”, embora tenha criticado atos de “puro vandalismo” em Bogotá, Manizales, Medellín e Cali.  Ele acompanhou os protestos em Bogotá ao lado de militares e policiais e com os ministros da Defesa e do Interior.

— Hoje os colombianos falaram, estamos ouvindo. O diálogo social tem sido a principal bandeira deste governo, precisamos aprofundá-lo em todos os setores da sociedade e acelerar nossa agenda social — afirmou, sem no entanto responder diretamente ao pedido de reunião com os líderes da mobilização.

Greve geral

Na quinta-feira, o país viveu a maior jornada de manifestações dos últimos dias, somada a uma greve geral, que serviu como termômetro para medir o desgaste do governo de Duque. O centro histórico e turístico de Bogotá, conhecido como La Candelaria, teve toque de recolher decretado, bem como em regiões de outras capitais regionais: Medellín, capital de Antioquia, e Cali, no Valle del Cauca.

De acordo com o ministro da Defesa recém-nomeado, Carlos Holmes Trujillo, além dos três mortos houve 98 detidos e 112 civis e 151 policiais feridos. Ele reconheceu, no entanto, que a maioria das manifestações foi pacífica.

A greve foi originalmente convocada pelo Comando Nacional Unitário, que reúne as principais organizações de trabalhadores do país, para rejeitar um pacote de reformas que estaria sendo preparado pelo governo — que nega as mudanças. Entre elas, estaria a proposta de eliminar o fundo de pensão estatal Colpensiones, aumentar a idade da aposentadoria e reduzir o salário dos jovens para 75% do mínimo.

Outros grupos também se somaram à convocação, como estudantes e professores, que exigem mais recursos para a educação pública, indígenas, artistas, organizações sociais e vários setores da oposição.

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