O PIRES TRINCADO NAS MÃOS DE GLADSON

O PIRES TRINCADO NAS MÃOS DE GLADSON

“A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo o que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.“ — Eduardo Galeano

Por Edinei Muniz

Quando assumiu o Governo do Estado do Acre em janeiro de 1983 após derrotar Jorge Kalume com 46% dos votos válidos ,- COM O PIRES NAS MÃOS – as notícias que chegavam ao gabinete do ex-governador Nabor Júnior (MDB) vindas do Ministro da Fazenda do ex-presidente João Figueiredo, de quem era adversário político, não eram das melhores.

O Brasil vivia os primeiros anos da década de 80, aquela que de tão grave e devastadora ao país na economia acabou rabiscada na história pelo catastrófico apelido de ‘A Década Perdida’, referência que, por si só, já aponta pistas do volume de dificuldades depositadas sobre a mesa do emedebista naquele tenebroso período histórico.

Nabor assumiu o governo deixando para trás vinte anos de governos militares e conduziu dois terços do mandato em cenário de extrema gravidade econômica, confirmada através de registros históricos recordes de retração do PIB nacional que, em efetivo, provocaram impactos severos no FPE em cenário de dependência acreana em relação ao Governo Federal em patamares superiores a 80%.

Na outra ponta do mapa acreano, a exatos 534 quilômetros distantes dali, em Cruzeiro do Sul, o menino Gladson de Lima Cameli, ainda com pouco menos de quatro anos de idade, no seio de tradicional e respeitável família de empreendedores locais, nem ao menos desconfiava dos desafios que o destino lançaria nas suas costas trinta e seis anos depois em situação de razoável similaridade política com Nabor em relação à carga de passado que sucederia, mas bem piores do ponto de vista econômico no tocante às dificuldades que teria para anunciar O QUE SERÁ diante DO QUE FOI em meio à escuridão apocalíptica das contas públicas estaduais.

E com um detalhe agravante à mais: COM O MESMO PIRES, QUE JÁ FOI DO NABOR, JÁ TRINCADO de uma ponta à outra após vinte anos seguidos de governos petistas, registrados como dez anos de relativa esperança seguidos de dez anos de tragédia.

Enquanto Gladson, ainda menino, desfrutava dos cuidados e do imenso carinho da Dona Linda Cameli e a ainda pacata e bucólica Rio Branco silenciava, as luzes do gabinete do governador Nabor Junior seguiam acessas.

O governador estava no quarto expediente e dividia seu tempo, até altas horas, entre despachos administrativos e conversas atenciosas com aliados. E também com adversários. Para Nabor, o sim era uma noite de sono tranquila para quem o recebia e o não era prego batido e virado.

Com a habilidade que lhe rendeu o título de maior estadista da galeria histórica dos ex-governadores acreanos, Nabor Júnior deixou o Palácio Rio Branco pela porta da frente e desceu as escadarias do poder sob aplausos que até hoje ecoam nos ouvidos de quem viveu e dependeu das suas decisões naquele tempo.

Enquanto isso, na Terra dos Náuas, Gladson crescia e acompanhava a saga empresarial do pai, Eládio Cameli, que logo faria deste um dos mais destacados empreendedores de toda a Amazônia. E no tio, Orleir Cameli, parceiro empresarial do pai, e ex-governador, viu brotar, ainda adolescente, a inspiração para construir o sonho de um dia governar o Acre. Mas talvez sem saber que o receberia em cenário de terra caída algumas décadas depois.

Antes de ensaiar os primeiros passos na política, Gladson assistiu, além do governo do tio, dentre outros, os governos de Flaviano Melo (MDB) e Jorge Viana (PT), estes que, diferente do próprio Gladson e também de NaborJúnior, governaram em cenário de forte crescimento econômico nacional, gozando, ainda, de atmosfera política favorável, eis que seus respectivos partidos surfaram, no tempo que governaram, em ambiente de confortável hegemonia política no plano nacional.

Por tais motivos, no quesito ‘aproveitamento das oportunidades do seu tempo’, Flaviano e Jorge Viana, criador e criatura, disputam até hoje, palmo a palmo, os maiores destaques na galeria dos ex-governadores em relação a tal quesito, em específico.

Por caprichos da história, Gladson Cameli viu seu tio derrotar Flaviano e, dando uma forte mão de força a Marcio Bittar, derrotou Jorge Viana recentemente, vingando o tio, que vinte anos antes, após sofrer uma oposição duríssima do PT e aliados, viu seu grupo político ser derrotado por um ‘WO’ arquitetado pelo mesmo Jorge Viana.

E foi em meio a tal emaranhado de acontecimentos históricos que Gladson Cameli chegou ao Palácio Rio Branco em 07 de outubro de 2018 sucedendo o trágico e humilhante final do ciclo de poder dos petistas, reduzindo, naquele memorável dia do juízo, o poder dos mesmos a patamares bem próximos daquele que era verificado no tempo em que o ex-deputado Nilson Mourão, heroicamente, era conduzido ao sacrifício humilhante das urnas, período classificado pelos próprios petistas como ‘o tempo do PT de 1%’.

A confirmação do sonho e a ascensão de Gladson ao governo, em relação à carga rançosa de passado que deixou para trás e o volume de problemas depositados sobre a mesa, revelam tão elevado nível de distanciamento dos demais que as dificuldades do progressista não encontram parâmetros comparativos em relação aos seus colegas de galeria, à exceção de Nabor Júnior que, em miniatura, recebeu cenário pedagogicamente similar.

Gladson Cameli iniciou o governo inaugurando dois novos itens avaliativos no tocante ao desempenho comparativo dos ex-governadores acreanos: a capacidade de extrair leite de pedra e a capacidade de respeito à margem de desconto, agora fortemente vigiada, ofertada pelos acreanos em relação ao desempenho de governo.

E, por tudo isso, por ser o governador acreano com maior carga de dificuldades sobre os ombros e também o mais vigiado da história, o desempenho do seu governo não encontra parâmetros em situação de bola rolando.

Em jogo treino, Nabor Júnior tem muito o que lhe ensinar.

Edinei Muniz é filiado ao Partido Progressista (PP)
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